Além das Regras.

Era para ser só trabalho, só regras, só distância. Mas bastou um olhar para tudo mudar. Entre o que é certo e o que o corpo implora, ela descobriu que o proibido é o que mais arde. Uma história de desejo, segredos e tudo o que não devia ser sentido… mas foi...

DESEJOS PROIBIDOS.

Sussurros do desejo

5/29/20265 min read

Eu entrei na sala como sempre fazia: passos leves, postura ereta, a pasta de documentos apertada contra o peito como se fosse o meu único escudo contra o que eu sentia. Mas naquele dia, havia algo diferente no ar. Talvez fosse a luz da manhã que batia de um jeito diferente nos meus cabelos, ou talvez fosse o silêncio pesado que tomava conta do escritório, já que todos os outros funcionários tinham ido embora. Só restávamos nós dois.

Ele estava sentado atrás da mesa, como há anos. A autoridade estampada em cada gesto, em cada olhar sério que costumava distribuir por ali. Era o meu chefe. A pessoa que determinava as regras, os horários, os limites. E justamente por isso, tudo o que existia entre nós era — ou deveria ser — proibido, errado, impossível.

— Deixei aqui os relatórios que o senhor pediu — falei, tentando manter a voz firme, embora por dentro o meu coração batesse descompassado, como um alarme que só eu ouvia alto demais.

Eu me aproximei, apoiando os papéis sobre a mesa. Ao me inclinar, senti o meu próprio perfume no ar, e percebi que ele havia levantado os olhos dos documentos. Naquele segundo, o mundo parou de girar.

Nossos olhares se encontraram. E ali, naquele simples cruzar de olhos, todas as regras, todos os limites, toda a seriedade que eu usava como uma capa protetora, começaram a ruir diante de mim.

Havia tanto tempo... tanto tempo que eu o observava disfarçadamente. O jeito como ele franzia a testa quando estava concentrado, a força dos seus braços quando segurava um objeto com mais firmeza, a voz grave que me causava arrepios só de ouvir. E todos os dias, a minha guerra interna: a razão gritava "fuja, é errado, vai dar errado", mas o meu corpo, a minha pele, os meus instintos mais profundos gritavam "quero, mais do que tudo". Eu me odiava por sentir, mas não conseguia deixar de sentir.

— Você sabe que não devíamos... — ele começou, a voz mais rouca do que o normal, deixando a frase morrer no ar. Ele também lutava. Ele também sentia. Isso ficou claro na forma como ele me olhava, como se estivesse com fome de mim.

— Eu sei — respondi, baixinho, sem desviar o olhar. Eu não tinha mais medo de olhar. — Sei de tudo o que nos separa. Sei que existem cargos, hierarquias, vidas inteiras construídas fora daqui. Sei que se alguém descobrir, tudo acaba.

Dei um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância que existia entre nós. A minha respiração ficou pesada, ritmada pelo desejo que ardia dentro de mim e que, até então, eu só conseguia esconder.

— Então por que está aqui, agora? — ele perguntou, levantando-se devagar, contornando a mesa. Cada movimento dele era calculado, perigoso, convidativo.

Engoli seco, sentindo o calor subir-me ao rosto e espalhar-se pelo resto do corpo, um calor que vinha de dentro, intenso, urgente, aquele calor que só aparece quando a gente sabe que está prestes a cometer um pecado.

— Porque há coisas que a gente não escolhe sentir. Elas simplesmente... acontecem. — Confessei, sentindo o peso da verdade na minha própria voz. — Há muito tempo, cada vez que o senhor fala comigo, cada vez que eu sinto o seu olhar, eu penso: e se? E se eu não fosse apenas uma funcionária? E se eu pudesse ser sua?

Ele parou bem diante de mim. Tão perto que eu podia sentir o calor que saía da pele dele, o cheiro da sua colônia que me deixava tonta. Levou uma das mãos até o meu rosto: dedos grandes, firmes, que tocaram a minha pele macia com uma delicadeza surpreendente, quase dolorosa de tão boa que era. O toque foi um choque elétrico, que percorreu todo o meu corpo, arrepiando cada centímetro de pele.

— Esse "e se" também me mata todos os dias — confessou ele, num sussurro grave, perigosamente próximo aos meus lábios. — Eu tento manter distância. Eu tento lembrar de tudo o que é certo, do que é permitido... mas basta você entrar por aquela porta, e tudo o que eu consigo pensar é em como seria ter você. Em como seria ouvir você dizer o meu nome sem formalidades, sem títulos, sem medo. Em como seria fazer você minha, de todas as formas possíveis.

Fechei os olhos por um instante, me entregando à sensação da mão dele ali, invadindo o meu espaço de uma forma que eu já esperava, mas que nunca imaginei ser tão avassaladora. Eu não devia estar gostando tanto assim. Eu não devia estar querendo mais. Mas eu queria. Eu queria tudo.

— E se não formos "certos" só por essa noite? — sugeri, abrindo os olhos, brilhantes, cheios de uma ousadia que eu mesma desconhecia ter. — E se deixarmos as regras do lado de fora?

Foi o suficiente.

Ele não respondeu com palavras. Aproximou-se mais ainda, segurando o meu rosto com as duas mãos agora, puxando-me contra si num movimento decidido, e finalmente uniu os lábios aos meus.

Foi um beijo que começou calmo, como quem experimenta um sabor proibido, mas que logo se transformou em fogo. Um beijo que tinha todas as palavras que não foram ditas, todos os desejos acumulados, todas as dúvidas e todas as certezas. Agarrei-me à camisa social dele com força, sentindo o tecido e o calor do corpo por baixo, enquanto ele apertava a minha cintura, puxando-me para si, eliminando qualquer espaço restante entre os nossos corpos que agora ardiam em completa sintonia.

Ali, entre papéis, prateleiras e móveis de madeira, não havia mais patrão, não havia mais subordinada. Havia apenas um homem e uma mulher, presos por uma atração que não podíamos mais negar.

As mãos dele desceram pela curva das minhas costas, explorando caminhos que só existiam na minha imaginação, fazendo-me arquear o corpo e soltar um gemido abafado contra o pescoço dele — um som que fez o desejo dentro dele crescer ainda mais, incontrolável. Senti os dedos firmes dele percorrendo caminhos proibidos, tocando onde ninguém mais tocara, despindo-me de todas as minhas defesas, despertando sensações que me fizeram esquecer completamente o mundo fora daquela sala.

Eu me coloquei à sua disposição, entregue, de um jeito que eu mesma me surpreendi. Era errado. Era arriscado. Era tudo o que eu mais queria.

Cada toque era uma confissão. Cada movimento, um acordo silencioso de que, por aquele momento, valia a pena correr todos os riscos. Os conflitos, as consequências, o "depois"... tudo ficou para depois, porque agora, o único que existia era o "agora". Era a necessidade urgente de se sentirmos vivos, de sermos um só, de provarmos um ao outro o quanto éramos capazes de desejar.

Quando finalmente o fôlego faltou e nós nos afastamos o suficiente apenas para nos olhar nos olhos, as respirações estavam ofegantes, os lábios vermelhos e úmidos, e havia uma verdade ali que não poderia mais ser apagada.

— O que fizemos... — comecei, a voz fraca, entre o susto de ter perdido o controle e a delícia do pecado cometido.

Ele sorriu, um sorriso de quem sabia que não havia mais volta, e acariciou o meu cabelo com carinho, olhando-me com um brilho nos olhos que prometia que aquilo não tinha sido o fim, mas sim apenas o começo de tudo.

— Nós só fizemos o que nossos corações e nossos corpos já sabiam há muito tempo — respondeu ele, sério agora.

Ajeitei a roupa, arrumei os cabelos, tentei recuperar o ar e a postura de sempre, embora nada dentro de mim estivesse no lugar. Ao sair da sala, olhei para trás uma última vez. Ele continuava parado, olhando para mim, e o silêncio que ficou ali não era mais pesado — agora, estava cheio de segredos, de memórias e de um desejo que, agora que havia saído do papel, jamais seria contido novamente.

As regras ainda existiam, é claro. Mas a partir daquele dia, elas já não tinham mais poder nenhum sobre nós.


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